A Mercury e a Angola Telecom colocaram em funcionamento uma nova ligação de banda larga com capacidade inicial de 100 Gbps na Restinga, no Lobito, província de Benguela.
A infraestrutura integra o Programa Nacional de Banda Larga e pretende aumentar a capacidade de transmissão de dados e a resiliência das telecomunicações na região.
A entrada em operação ocorreu durante uma visita de trabalho do ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, Mário Oliveira, à província de Benguela.
Mais do que a velocidade anunciada, porém, a importância do projecto está no lugar que ocupa dentro da rede.
Estamos a falar de backbone.
E isso é diferente da velocidade que aparece no telefone do utilizador.
O que significam os 100 Gbps?
Os 100 Gbps representam a capacidade inicial da ligação para transportar grandes volumes de dados através da infraestrutura.
Um gigabit corresponde a mil megabits.
Portanto, em termos puramente matemáticos, 100 Gbps equivalem a 100.000 Mbps.
Mas isso não significa que cada pessoa no Lobito passará a ter Internet de 100 Gbps.
A capacidade é partilhada pela rede e serve para transportar tráfego entre diferentes pontos, operadores, empresas, instituições e serviços.
É semelhante a aumentar o número de faixas numa estrada principal.
A estrada consegue transportar mais carros ao mesmo tempo, mas isso não significa que cada condutor passa a ter a estrada inteira só para si.
Backbone é a estrada principal da Internet
Uma rede de telecomunicações possui diferentes camadas.
Na ponta está o acesso que chega ao utilizador através de fibra, 4G, 5G, rádio ou outras tecnologias.
Por trás existe uma infraestrutura responsável por transportar grandes volumes de tráfego entre cidades, centros de dados e diferentes redes.
É o backbone.
Quando essa infraestrutura tem pouca capacidade ou apresenta congestionamento, aumentar apenas a velocidade do acesso local não resolve todo o problema.
É precisamente por isso que investimentos em backbone são importantes para a expansão da economia digital.
A nova ligação do Lobito pretende aumentar essa capacidade na região de Benguela.
Mercury e Angola Telecom vão partilhar capacidades
O projecto também envolve cooperação entre duas empresas angolanas de telecomunicações.
A Mercury disponibiliza capacidade técnica e experiência na implementação e gestão de infraestruturas digitais, enquanto a Angola Telecom participa através da sua rede e estrutura nacional.
A estratégia prevê a utilização conjunta de infraestruturas e capacidades técnicas.
Este modelo pode ser relevante.
Construir redes paralelas exactamente nos mesmos percursos nem sempre é economicamente eficiente.
Quando operadores conseguem partilhar determinados elementos de infraestrutura, podem reduzir custos e acelerar a expansão para outras regiões.
Isso não elimina a necessidade de concorrência.
A concorrência deve continuar nos serviços, preços, qualidade e inovação.
Mas uma torre, fibra ou conduta não precisa necessariamente de ser construída três vezes no mesmo passeio para que exista competição.
Outras ligações estão previstas
A iniciativa não deverá terminar no Lobito.
Segundo a informação divulgada sobre o projecto, estão previstas outras ligações de backbone destinadas a melhorar a interligação entre diferentes regiões de Angola.
Este será o ponto mais importante para acompanhar.
Angola ainda apresenta diferenças significativas de conectividade entre Luanda, grandes centros urbanos e regiões do interior.
Uma rede nacional mais robusta pode melhorar as condições para operadores móveis, fornecedores de Internet, bancos, serviços públicos, escolas e empresas digitais.
Contudo, a existência de backbone não resolve automaticamente a última parte do caminho.
A capacidade ainda precisa de chegar às casas e empresas através das chamadas redes de acesso.
Lobito ganha importância digital
A escolha do Lobito também merece atenção.
A cidade está no centro de uma das maiores transformações logísticas actualmente em curso em Angola.
O Corredor do Lobito liga o litoral angolano à fronteira com a República Democrática do Congo e tornou-se alvo de investimentos internacionais em ferrovia, logística, energia e infraestrutura.
Uma economia logística moderna depende igualmente de telecomunicações.
Portos precisam de sistemas digitais.
Operadores ferroviários utilizam monitorização e comunicação em tempo real.
Empresas de logística trabalham com plataformas de rastreamento.
Bancos processam pagamentos.
Alfândegas trocam dados.
Armazéns utilizam sistemas de gestão.
Por isso, infraestrutura digital e infraestrutura física acabam por crescer lado a lado.
Uma ferrovia pode transportar cobre.
A fibra transporta praticamente tudo o resto.
Mercury tem reforçado aposta em infraestrutura empresarial
A Mercury apresenta-se como empresa angolana de infraestrutura e serviços digitais integrada no Grupo Sonangol.
A companhia tem vindo a desenvolver diferentes soluções de conectividade empresarial.
Entre elas está o My5G, uma solução de Fixed Wireless Access que utiliza 5G para disponibilizar conectividade empresarial sem necessidade de ligação física por fibra até ao cliente.
A empresa anuncia velocidades de até 100 Mbps para o serviço e presença inicial em Cabinda e Luanda.
Também trabalha com conectividade por satélites de baixa órbita para operações remotas e serviços destinados a sectores como petróleo, indústria, banca e Governo.
A participação no Programa Nacional de Banda Larga coloca agora a empresa numa camada ainda mais estrutural da conectividade nacional.
Mais capacidade não significa automaticamente Internet melhor
Aqui é preciso evitar a conclusão fácil.
Uma ligação de 100 Gbps melhora capacidade.
Mas a experiência do utilizador depende de vários outros elementos.
Qualidade da rede do operador, cobertura móvel, fibra disponível no bairro, congestionamento, equipamentos, capacidade internacional e até o servidor do serviço utilizado podem influenciar a velocidade final.
Portanto, seria incorrecto afirmar que a nova ligação significa imediatamente “Internet mais rápida para todos em Benguela”.
O que podemos afirmar é mais preciso:
Benguela passa a dispor de mais capacidade de transporte de dados na infraestrutura de backbone.
A melhoria que chegará ao utilizador dependerá da forma como essa capacidade será distribuída e aproveitada pelos operadores.
O próximo teste será a expansão
Os 100 Gbps do Lobito são um começo mensurável.
Agora precisamos acompanhar as próximas ligações.
Quais províncias entram depois?
Qual será a capacidade instalada?
Que operadores poderão utilizar a infraestrutura?
Quanto do backbone será partilhado?
E, principalmente, essa capacidade adicional conseguirá chegar às zonas onde hoje a conectividade continua limitada?
Uma rede nacional não se mede apenas pela velocidade do seu melhor ponto.
Mede-se por quão longe consegue chegar.




