O investimento estrangeiro fora do sector petrolífero em Angola atingiu 971,8 milhões de dólares no primeiro semestre de 2026, um crescimento de 187% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Entre Janeiro e Junho de 2025, o valor tinha sido de 338,3 milhões USD.
Isso significa que Angola recebeu mais 633,5 milhões USD de investimento directo estrangeiro em actividades não petrolíferas na comparação homóloga.
Os cálculos divulgados pelo Expansão têm como base as estatísticas do Banco Nacional de Angola.
O valor representa o melhor resultado semestral desde que o BNA começou a disponibilizar dados trimestrais sobre investimento directo estrangeiro, em 2012, e o nível mais elevado dos últimos 18 anos.
Seis meses já superam todo o ano de 2025
O tamanho da mudança fica mais evidente quando comparamos o resultado com o ano anterior. Durante todo o ano de 2025, Angola tinha registado aproximadamente 959,4 milhões USD de IDE fora do petróleo. Nos primeiros seis meses de 2026, o valor chegou a 971,8 milhões USD.
Ou seja, o primeiro semestre sozinho já ficou ligeiramente acima de todo o resultado de 2025. Para encontrar um valor anual superior é necessário recuar até 2008, quando o país recebeu aproximadamente 1,265 mil milhões USD de investimento estrangeiro fora do sector petrolífero.
É um sinal relevante para uma economia que há vários anos procura atrair capital para actividades diferentes do petróleo. Mas os números também pedem alguma cautela.
Petróleo continua a receber 82% do IDE
Apesar da forte subida do investimento não petrolífero, o Oil & Gas continua a dominar a entrada de capital estrangeiro em Angola. No primeiro semestre, os sectores não petrolíferos representaram aproximadamente 18% do IDE captado pelo país. O petróleo ficou com os restantes 82%.
Portanto, não estamos perante o fim da dependência do investimento petrolífero. Estamos perante uma alteração gradual da composição. E essa diferença é importante.
Em 2023, os sectores não petrolíferos representavam apenas cerca de 1% do IDE.
Em 2025, o peso tinha aumentado para aproximadamente 9%.
Agora chega aos 18%. O petróleo continua claramente dominante, mas a distância começou a diminuir.
Indústria e agricultura aparecem entre os sectores em crescimento
A AIPEX também confirmou esta semana que o investimento estrangeiro fora do petróleo se aproximou de mil milhões USD no primeiro semestre.
Segundo o presidente do Conselho de Administração da instituição, Arlindo das Chagas Rangel, indústria e agricultura estão entre as actividades que contribuíram para a evolução. A agência afirma ainda que investimentos privados acompanhados nos últimos anos contribuíram para a criação de aproximadamente 25 mil postos de trabalho.
É aqui que a discussão sobre diversificação começa a ficar mais interessante.
Atrair capital para exploração petrolífera é importante para Angola. Mas investimento em indústria, agricultura e serviços pode produzir efeitos diferentes sobre emprego, produção local e importações.
Uma fábrica precisa de trabalhadores. Uma cadeia agrícola precisa de produtores, transporte, armazenamento e distribuição. E empresas de serviços podem criar novos mercados em torno desses investimentos. O valor do capital é importante. Mas onde o dinheiro entra também é.
AIPEX registou 383 projectos avaliados em 14,6 mil milhões USD
Entre 2022 e 2025, a AIPEX registou 383 projectos de investimento privado avaliados em 14,6 mil milhões USD. Segundo dados apresentados esta semana por Arlindo das Chagas Rangel, cerca de 79% do montante aprovado está concentrado na indústria, equivalente a aproximadamente 10 mil milhões USD.
Contudo, estes números precisam de ser lidos correctamente. Projecto registado não significa investimento totalmente executado.
Uma intenção de investimento pode ser aprovada e depois avançar em diferentes fases.
Pode sofrer atrasos. Pode mudar de dimensão. Ou pode simplesmente não chegar à execução integral.
É por isso que dados de fluxos financeiros efectivamente registados pelo BNA são particularmente úteis.
Eles ajudam a separar anúncios de capital que realmente entrou.
IDE não é simplesmente dinheiro que chega do exterior
Também existe alguma confusão frequente sobre o significado de Investimento Directo Estrangeiro. DE não é qualquer transferência de dinheiro feita por um estrangeiro para Angola. Normalmente envolve uma entidade não residente que adquire participação numa empresa, cria uma nova sociedade ou sucursal, aumenta capital, reinveste lucros ou realiza outras operações que lhe permitem exercer influência económica sobre a actividade. Isso distingue o IDE de investimentos financeiros de curto prazo ou simples empréstimos.
O objectivo é estabelecer uma relação económica mais duradoura. Por isso, países procuram este tipo de capital não apenas pelo dinheiro inicial, mas pela possibilidade de trazer tecnologia, conhecimento, capacidade produtiva, empregos e acesso a novos mercados.
Ainda não sabemos exactamente onde entraram os 971,8 milhões USD
Aqui aparece uma limitação importante dos dados. As estatísticas do BNA registam os fluxos financeiros, mas não identificam publicamente todos os projectos e subsectores específicos que receberam os 971,8 milhões USD.
A AIPEX aponta indústria e agricultura entre os sectores relevantes, mas isso ainda não permite distribuir com precisão o montante.
Quanto foi para mineração, Quanto foi para agricultura? Quanto entrou na indústria transformadora?Quanto foi para imobiliário, comércio ou serviços?
Sem essa decomposição, não devemos inventar uma história mais detalhada do que os dados permitem. Sabemos que o capital fora do petróleo aumentou fortemente. Ainda não sabemos exactamente para onde foi cada dólar.
O IDE total, porém, recuou
Há outra nuance importante. O forte crescimento fora do petróleo não impediu uma redução do IDE total. Segundo os cálculos divulgados com base nos dados do BNA, o investimento estrangeiro total caiu aproximadamente 3%, devido à redução dos fluxos dirigidos ao sector petrolífero. Isto produz uma fotografia económica interessante.
Angola recebeu menos investimento estrangeiro no conjunto. Mas recebeu muito mais fora do petróleo. Para uma estratégia de diversificação, a composição pode ser tão importante quanto o valor total.
O verdadeiro teste será manter o ritmo
Um semestre não define uma transformação económica. O crescimento de 187% é grande, mas parte também de uma base relativamente pequena. O teste será saber se Angola consegue manter níveis próximos ou superiores a estes nos próximos anos.
E, principalmente, se os investimentos se transformam em produção. Uma fábrica construída é mais importante do que uma fábrica anunciada. Uma exploração agrícola a produzir é mais importante do que um memorando. Uma empresa que exporta é mais importante do que uma intenção de exportar.
Os 971,8 milhões USD mostram que o capital estrangeiro começou a olhar com maior intensidade para actividades fora do petróleo. Agora precisamos seguir esse dinheiro até ao terreno.

