O Banco Angolano de Investimentos captou 57,5 mil milhões de kwanzas através da primeira Oferta Pública de Subscrição de obrigações sustentáveis realizada no mercado de capitais angolano.
Os resultados, apurados durante uma sessão especial da BODIVA realizada a 16 de Setembro e divulgados na quinta-feira, mostram que a procura ultrapassou o montante inicialmente colocado à disposição dos investidores.
A operação começou com uma oferta de cinco milhões de obrigações, cada uma com valor nominal de 10.000 Kz.
Isso representava uma captação inicial máxima de 50 mil milhões Kz.
Mas os investidores pediram mais.
Procura atingiu 113,35% da oferta
O rácio de cobertura da operação chegou a 113,35%.
Em termos simples, significa que a quantidade de obrigações procurada pelos investidores ultrapassou a quantidade inicialmente colocada no mercado.
Este era precisamente o número que faltava quando a oferta encerrou a 14 de Setembro.
Até então, sabíamos quanto o BAI pretendia captar.
Agora sabemos que havia procura suficiente para superar esse montante.
E o banco tinha preparado uma solução para essa possibilidade.
BAI colocou mais 750 mil obrigações
O prospecto previa uma opção de lote suplementar caso a procura justificasse o aumento da emissão.
Foi o que aconteceu.
O BAI acrescentou 750 mil obrigações, com as mesmas características dos títulos inicialmente oferecidos.
Como cada obrigação possui valor nominal de 10.000 Kz, o lote adicional representou mais 7,5 mil milhões Kz.
Assim, a operação passou de:
50 mil milhões Kz para 57,5 mil milhões Kz.
Na prática, o banco utilizou integralmente a capacidade adicional prevista para a oferta.
Mesmo com o aumento houve rateio
O aumento da emissão não foi suficiente para satisfazer integralmente toda a procura.
O rácio de alocação ficou em 86,34%.
Isto significa que, aplicadas as regras da operação, determinados investidores não receberam necessariamente todas as obrigações que solicitaram.
Foram apresentadas 454 ordens, das quais 431 foram satisfeitas, considerando as condições de alocação divulgadas.
Este detalhe é importante.
Quando uma oferta precisa aumentar a quantidade disponível e ainda assim aplicar rateio, existe evidência concreta de procura acima da oferta.
Agora podemos dizer isso.
Antes do apuramento, não podíamos.
Obrigações pagam taxa fixa de 17%
Os títulos pertencem ao empréstimo obrigacionista denominado BAI Senior Unsecured Sustainability Bond – Série A – 17% 2026-2029.
A emissão oferece uma taxa nominal bruta fixa de 17% ao ano, com pagamento semestral de juros.
Cada obrigação tem valor nominal de 10.000 Kz e a maturidade está prevista para Setembro de 2029.
Por isso, o investidor está essencialmente a emprestar dinheiro ao BAI durante o prazo da obrigação em troca de juros.
No final da maturidade, o banco deverá reembolsar o capital nas condições estabelecidas na emissão.
A palavra importante continua a ser bruta.
Os 17% não correspondem automaticamente ao retorno líquido recebido pelo investidor depois dos impostos aplicáveis.
Porque estas obrigações são diferentes?
Esta emissão não é apenas mais uma operação de dívida privada.
É a primeira oferta pública de obrigações sustentáveis realizada no mercado angolano.
O enquadramento sustentável significa que os recursos captados devem ser aplicados segundo critérios previamente estabelecidos para financiamento de actividades com impacto ambiental ou social.
Este tipo de instrumento já possui dimensão significativa nos mercados internacionais.
Em Angola, porém, ainda está a começar.
Por isso, o resultado do BAI funciona também como teste à capacidade do mercado doméstico para absorver instrumentos financeiros diferentes das tradicionais obrigações e títulos públicos.
A resposta inicial dos investidores foi positiva.
Luanda concentrou 92% da procura
Existe, contudo, outro número que merece tanta atenção quanto os 57,5 mil milhões Kz.
92,11% da procura veio de Luanda.
Cabinda representou aproximadamente 1,62% e Benguela 1,39%.
Os restantes 4,87% foram distribuídos por outras nove províncias participantes na operação.
Isto revela um desafio estrutural do mercado de capitais angolano.
O mercado está a crescer, mas a participação continua extremamente concentrada na capital.
A BODIVA pode ter alcance nacional no papel.
Na prática, o investidor de mercado de capitais continua fortemente concentrado em Luanda.
Isso pode reflectir diferenças de rendimento, literacia financeira, acesso aos intermediários, conhecimento dos produtos financeiros ou simplesmente concentração da actividade empresarial.
Provavelmente é uma combinação de todos esses factores.
O próximo desafio é levar a bolsa para fora de Luanda
A operação do BAI mostra que existe procura por novos instrumentos.
Mas também mostra onde essa procura está.
Para um mercado de capitais verdadeiramente nacional, será necessário aumentar o acesso fora da capital.
Isso passa por educação financeira, plataformas digitais, distribuição através de bancos e intermediários e maior comunicação sobre como funcionam acções, obrigações e outros valores mobiliários.
Não é apenas uma questão de colocar uma aplicação na Internet.
Um investidor precisa compreender o que está a comprar.
Caso contrário, a digitalização apenas torna mais rápido cometer um erro.
Obrigações poderão ser negociadas na BODIVA
A operação ainda tem duas etapas importantes.
A liquidação física e financeira está prevista para 21 de Setembro.
Depois, em 22 de Setembro, está prevista a admissão das obrigações à negociação no Mercado de Bolsa de Obrigações Privadas da BODIVA.
A partir dessa data, os investidores poderão negociar os títulos no mercado secundário.
Isto significa que alguém que tenha adquirido as obrigações na OPS poderá procurar vendê-las antes da maturidade.
Mas a possibilidade de vender não significa garantia de encontrar comprador ao mesmo preço.
O preço no mercado secundário dependerá da procura, oferta, taxas de juro e condições financeiras.
Juros do BNA também entram na equação
O momento da emissão torna-se ainda mais interessante porque o Banco Nacional de Angola acabou de reduzir a sua taxa directora para 14,75%.
Ao mesmo tempo, a inflação homóloga caiu para 8,78% em Agosto.
Se Angola entrar num ciclo prolongado de redução das taxas de juro, obrigações emitidas anteriormente com taxas fixas mais elevadas podem tornar-se relativamente mais interessantes para determinados investidores.
Mas o movimento inverso também é possível.
Se as taxas voltarem a subir, novos instrumentos poderão oferecer rendimentos superiores.
É precisamente por isso que títulos de rendimento fixo também têm preço de mercado.
“Fixo” refere-se às condições do cupão.
Não significa que o valor do título nunca mude.
Mercado angolano está a ganhar novas opções
O calendário de Setembro mostra uma transformação interessante.
O BAI acaba de concluir uma emissão de dívida sustentável.
Ao mesmo tempo, a OPV do Standard Bank de Angola está aberta ao público até 25 de Setembro.
Ou seja, em poucas semanas, investidores angolanos estão a ser confrontados com duas decisões bastante diferentes.
Num caso, emprestar dinheiro a um banco através de obrigações.
No outro, tornar-se accionista de um banco através da compra de acções.
Risco, retorno e prazo não são iguais.
E isso é bom.
Um mercado de capitais não cresce apenas quando entra mais dinheiro.
Cresce quando aparecem mais escolhas.
O verdadeiro teste começa agora
Os 57,5 mil milhões Kz fazem desta emissão um sucesso em termos de procura.
Mas a história não termina na captação.
Agora será necessário acompanhar onde o BAI aplicará os recursos, como demonstrará o impacto sustentável dos projectos financiados e como as obrigações se comportarão depois de começarem a negociar na BODIVA.
Também será importante observar se outras empresas angolanas seguirão o mesmo caminho.
Uma emissão pioneira é interessante.
Duas começam a formar um mercado.
Dez mudariam a forma como empresas angolanas se financiam.
Fontes consultadas
Os resultados da operação foram divulgados pela BODIVA e confirmam a captação de 57,5 mil milhões Kz, procura superior à oferta e rácio de cobertura de 113,35%.
O Jornal Económico detalha o rateio de 86,34%, as 454 ordens submetidas, 431 satisfeitas e a distribuição geográfica da procura.

