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BNA corta taxa de juro para 14,75% com inflação abaixo de 9%

BNA taxa de juros

O Banco Nacional de Angola voltou a reduzir a taxa de juro directora, aproveitando a desaceleração da inflação para continuar o ciclo de flexibilização da política monetária.

Na reunião realizada ontem a 15 de Setembro, o Comité de Política Monetária reduziu a Taxa BNA em um ponto percentual, de 15,75% para 14,75%. ver…

É o terceiro corte consecutivo realizado pelo banco central.

A decisão surge depois de a inflação homóloga ter recuado para 8,78% em Agosto, contra 9,33% em Julho. Ver…

A inflação angolana permanece, assim, abaixo dos dois dígitos pelo segundo mês consecutivo.

Mas a decisão do BNA foi além da taxa directora.

Bancos terão menos dinheiro imobilizado no BNA

O Comité de Política Monetária também reduziu o coeficiente de reservas obrigatórias em moeda nacional.

O rácio passou de 17,5% para 16,5%.

As reservas obrigatórias representam a parcela dos depósitos que os bancos comerciais precisam manter junto do banco central.

Quando esse coeficiente diminui, uma parcela maior dos recursos pode ficar disponível no sistema bancário.

Em teoria, isso aumenta a capacidade dos bancos para financiar empresas e famílias.

Contudo, existe uma diferença entre ter liquidez disponível e conceder crédito.

Os bancos continuam a avaliar risco, capacidade de pagamento, garantias e rentabilidade antes de emprestar.

Portanto, a redução das reservas não significa que o crédito ficará automaticamente fácil ou barato a partir desta semana.

Porque o BNA está a baixar os juros?

A resposta principal está na inflação.

Quando os preços crescem rapidamente, bancos centrais costumam utilizar taxas de juro elevadas para reduzir a quantidade de dinheiro e crédito na economia.

Financiamentos tornam-se mais caros, o consumo desacelera e empresas tendem a ser mais cuidadosas com novos investimentos.

Quando a inflação perde força, surge espaço para fazer o movimento contrário.

Foi exactamente o que aconteceu em Angola durante os últimos meses.

Em Julho, o BNA já tinha reduzido a taxa directora de 17% para 15,75%.

Agora, dois meses depois, chega a nova descida para 14,75%.

Inflação caiu para 8,78%

A inflação homóloga situou-se em 8,78% em Agosto, segundo os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística.

É uma mudança importante em relação aos níveis observados nos últimos anos.

A Reuters refere que Angola voltou a registar inflação de um dígito pela primeira vez em mais de uma década.

O BNA mantém actualmente uma previsão de inflação de aproximadamente 8,6% para o final de 2026.

Se a trajectória continuar, poderá existir espaço para novas decisões de política monetária.

Mas isso não significa que novos cortes estejam garantidos.

O banco central continuará a observar preços, taxa de câmbio, liquidez e condições externas.

Economia poderá crescer 6,15%

Talvez a maior surpresa da reunião tenha vindo de outro indicador.

O BNA elevou a sua previsão de crescimento da economia angolana em 2026 para 6,15%.

Em Julho, a instituição apontava para apenas 3,6%.

A diferença é grande.

Segundo a nova previsão, o sector não petrolífero deverá crescer aproximadamente 7,16%, apoiado por actividades como agricultura, pescas, indústria transformadora, comércio e construção.

Isto é particularmente importante para Angola.

Durante décadas, o comportamento do PIB esteve fortemente ligado à produção e ao preço do petróleo.

Quanto maior for a contribuição de agricultura, indústria, comércio e serviços, menor poderá tornar-se essa dependência.

Mas convém manter os pés no chão.

Os 6,15% são uma previsão, não o resultado final do ano.

Juros menores significam crédito mais barato?

Não imediatamente.

A Taxa BNA influencia as condições financeiras da economia, mas não é a mesma coisa que a taxa cobrada ao cliente num crédito bancário.

Um banco adiciona outros factores ao preço do financiamento, incluindo risco do cliente, prazo, custos operacionais, garantias e margem comercial.

Por isso, ninguém deve esperar que um crédito empresarial ou pessoal passe automaticamente para 14,75%.

O que pode acontecer é diferente.

Se a inflação continuar a cair e o ciclo de redução dos juros persistir, o custo do dinheiro no sistema financeiro poderá diminuir progressivamente.

Esse processo pode melhorar as condições de financiamento.

Empresas também podem beneficiar

Juros mais baixos são especialmente relevantes para empresas que dependem de financiamento para comprar equipamentos, aumentar stock ou expandir operações.

Quando o custo do crédito é demasiado elevado, muitos investimentos deixam simplesmente de fazer sentido.

Uma empresa só deve financiar uma expansão quando espera gerar retorno suficiente para pagar o financiamento e ainda criar valor.

Quanto menor for o custo do dinheiro, maior é o número de projectos que podem tornar-se economicamente viáveis.

Esse é um dos mecanismos através dos quais a política monetária pode apoiar o crescimento.

Mas existe um equilíbrio delicado

Reduzir juros também tem riscos.

Se demasiado dinheiro entrar rapidamente na economia, a procura pode voltar a pressionar os preços.

Existe ainda a questão cambial.

Taxas de juro menores podem reduzir a atractividade dos activos em kwanzas para determinados investidores, especialmente quando existem alternativas internacionais com retornos elevados.

O BNA precisa, portanto, equilibrar três objectivos difíceis: inflação, crescimento e estabilidade cambial.

É precisamente por isso que uma taxa directora não deve ser analisada isoladamente.

O que muda para quem acompanha investimentos?

A descida dos juros também interessa ao mercado de capitais.

Angola está neste momento com a OPV do Standard Bank aberta ao público e acaba de concluir a subscrição das primeiras obrigações sustentáveis do BAI.

Ao mesmo tempo, o Governo pretende ampliar o acesso de investidores estrangeiros ao mercado doméstico de dívida pública e mantém conversações relacionadas com um novo índice de mercados fronteira do JPMorgan.

Tudo isto acontece enquanto o custo do dinheiro começa a diminuir.

Se o ciclo continuar, investidores terão de comparar com maior atenção depósitos, títulos públicos, obrigações corporativas e acções.

É assim que um mercado financeiro amadurece: quando guardar dinheiro deixa de ser a única decisão e passa a existir uma verdadeira escolha entre risco, prazo e retorno.

O que acompanhar agora

A próxima questão é saber se a queda dos juros chegará efectivamente à economia real.

Nos próximos meses será importante observar as taxas cobradas pelos bancos, evolução do crédito às empresas, comportamento do kwanza e trajectória da inflação.

Também precisamos acompanhar a previsão de crescimento de 6,15%.

Se a economia terminar realmente o ano perto desse valor, 2026 terá uma leitura muito diferente daquela que existia ainda em Julho.

Por enquanto, uma coisa já mudou.

Depois de anos em que o combate à inflação obrigou o dinheiro a permanecer caro, o BNA está a começar a retirar o pé do travão.

Fontes utilizadas

  1. Mercado — inflação homóloga de Agosto em 8,78%BNA · consultada em 2026-09-16