A Refinaria de Cabinda processou aproximadamente 770 mil barris de petróleo entre o início das operações comerciais, em Março, e Julho de 2026, mas apenas uma pequena parcela desse volume foi destinada à produção de gasóleo.
Segundo dados fornecidos pela própria refinaria e publicados pelo Expansão, a refinaria utilizou cerca de 110 mil barris, equivalentes a 14,3% do crude processado, para produzir gasóleo.
Os restantes volumes tiveram sobretudo como destino a produção de nafta e HFO, um óleo combustível pesado utilizado, entre outras aplicações, no transporte marítimo e na indústria.
Os números ajudam a perceber melhor o papel que a unidade está actualmente a desempenhar no mercado angolano.
HFO representa a maior parte da produção detalhada
Dos 770 mil barris processados, a refinaria destinou aproximadamente 406 mil barris à produção de HFO e utilizou outros 165 mil barris para produzir nafta.
A refinaria também produziu Jet A1, embora os dados divulgados não apresentem o mesmo nível de detalhe comercial para este produto.
Isto significa que, durante os primeiros meses de operação, a refinaria concentrou grande parte da produção em produtos destinados ao mercado internacional.
Essa realidade contrasta parcialmente com a percepção de que a entrada da refinaria resolveria imediatamente uma parcela significativa das necessidades nacionais de gasóleo.
Quanto ficou realmente em Angola?
Os dados comerciais oferecem ainda outra leitura.
Dos 308.269 barris de produtos vendidos cuja distribuição foi detalhada, Cabinda recebeu aproximadamente 43.119 barris de gasóleo para consumo no mercado nacional.
Por outro lado, a refinaria exportou cerca de 72.042 barris de nafta e 193.108 barris de HFO.Ou seja, nesta fase, a refinaria tem simultaneamente dois papéis.
Produz algum combustível para o mercado angolano, mas também gera produtos destinados à exportação.
Isto não significa necessariamente que exista um problema.
Uma refinaria procura maximizar o valor económico do crude disponível, enquanto a sua configuração técnica define os produtos que consegue fabricar em cada etapa.
No entanto, para medir o impacto sobre as importações nacionais de gasóleo, é preciso analisar os volumes reais produzidos e vendidos, e não apenas a capacidade nominal da instalação.
Unidade ainda opera abaixo da capacidade prevista
A primeira fase da Refinaria de Cabinda foi concebida para processar até 30 mil barris por dia.
Contudo, dados apresentados pelo Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás em Agosto indicavam uma média operacional de aproximadamente 15.750 barris por dia.
Portanto, a unidade ainda estava numa fase de subida progressiva de produção.
Isso é particularmente importante quando se compara a produção actual com as metas anunciadas durante a construção.
Não se deve avaliar uma instalação que ainda está a estabilizar a operação como se já estivesse na sua capacidade máxima.
Ao mesmo tempo, é legítimo acompanhar a velocidade dessa evolução.
Segunda fase deverá duplicar capacidade
A expansão prevista pretende acrescentar outros 30 mil barris por dia, elevando a capacidade instalada total para 60 mil.
Segundo a informação fornecida ao Expansão, a equipa responsável deverá concluir os estudos técnicos da segunda fase em Novembro de 2026 e prevê iniciar as obras até ao terceiro trimestre de 2027.
Essa fase está avaliada em aproximadamente 700 milhões de dólares.
A segunda etapa será particularmente importante porque deverá ampliar a capacidade de transformar crude em produtos com maior procura no mercado interno.
Só depois dessa expansão será possível avaliar com maior rigor o contributo estrutural da Refinaria de Cabinda para a redução das importações.
Exportar derivados também traz vantagens
Existe um detalhe que não deve ser perdido no debate.
Exportar derivados de petróleo é economicamente diferente de exportar apenas crude.
Quando uma refinaria transforma petróleo bruto em nafta, HFO ou outros derivados, Angola passa a gerar parte do valor acrescentado dentro do próprio país.
Isso pode significar actividade industrial, receitas fiscais, emprego e aprendizagem tecnológica.
Por isso, uma refinaria não precisa obrigatoriamente de colocar toda a produção no mercado doméstico para ter impacto económico.
A questão é encontrar equilíbrio.
Angola continua a importar volumes consideráveis de combustíveis acabados.
Consequentemente, aumentar a produção nacional de gasolina e gasóleo continua a ser uma das razões estratégicas para os investimentos em refinação.
Sistema de exportação offshore também está em construção
O Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás informou em Agosto que o Sistema Offshore de Importação e Exportação associado à refinaria apresentava 61,2% de execução física.
Quando concluído, deverá permitir movimentar produtos directamente através de infraestrutura marítima própria.
Isto poderá facilitar e aumentar a componente exportadora da unidade.
Ao mesmo tempo, reforça a necessidade de analisar separadamente três números nos próximos meses:
crude processado, volume de derivados produzido e volume realmente entregue ao mercado angolano.
São indicadores diferentes.
O que devemos acompanhar
O próximo marco será perceber se a unidade se aproxima dos 30 mil barris diários previstos para a primeira fase.
Também interessa acompanhar o volume mensal de gasóleo e Jet A1 colocado no mercado doméstico.
Por fim, a conclusão dos estudos da segunda fase em Novembro deverá esclarecer melhor o calendário da expansão para 60 mil barris.
A Refinaria de Cabinda já está a produzir.
Agora começa uma fase mais interessante para o público: medir o que essa produção realmente muda na economia.

